
Os obreiros de onte e a falsificaçom da tradiçom.
Jorge Paços.
Pedem-me os amigos d’a Folha que escreva um textinho divulgativo sobre o socialismo na Galiza, com o objectivo de conhecer bem as origens do partido que hoje manda –no governinho galego e nos concelhos de Ames e Briom- e a sua transformaçom ao longo do tempo. Como todos sabemos, o partido risca-se de ‘socialista’ e de ‘obreiro’, e tem umha longa andaina no nosso país.
Para os poderosos, mergulhar na memória é retocar um expediente: apanhar os dados que melhor cadrarem com a imagem ideal que um quer ensinar ao público, e passeá-lo a olhos de todos, com a ideia de dar algum brilho à imagem cinzenta do presente. O passado –e nomeadamente o que aconteceu antes de 1936- serve para fazer heróicos os covardes, sinceros os trapaceiros, singulares os gregários, firmes os trementes. Para os oprimidos, a pesquisa do passado é a contrária: trata-se de desempoeirar pedaços da vida dos devanceiros, colocar-nos perguntas, e atrever-nos às respostas: tinham algumha cousa que ver os oprimidos de onte com os de hoje? Luitavam como luitamos nós? Em que falharam e em que acertaram? Que liçons nos podem dar, e que queremos transmitir deles?
O cámbio do mundo.
Palavras hoje assentadas firmemente queriam dizer cousas mui distintas há mais de cem anos, quando na Galiza germolavam os primeiros ensaios de organizaçom obreira. ‘Democracia’ era um objectivo ansiado, um regime oposto à tirania que exigia firmeza e compromisso; hoje associa-se com umha sociedade de direitos formais ou direitos que nom se exercem; com um malestar opulento e indolente; com a corrupçom generalizada e o ‘salve-se quem puder’; ‘socialismo’ era um termo rotundo e temido: a ideia dumha sociedade radicalmente diferente sem desigualdade, onde a economia era rigorosamente controlada polos homens e mulheres; na actualidade é a marca dum partido político servidor da economia, do progresso, do produtivismo e do mundo que todos padecemos. A palavra ‘trabalhador’, finalmente, tinha também um outro sentido ao que hogano nos resulta familiar. Fazia referência a umha actividade importante e digna. O trabalho construía e fazia habitável o mundo, e o ofício era a habilidade necessária para a reproduçom social. Carpinteiros, tipógrafos, canteiros, sapateiros, alvanéis ou jastres reinvidicavam controlar o próprio processo de trabalho, e que este garantisse umha existência digna sem as pressons da patronal. Há cem anos, ninguém pensava no trabalho como umha dedicaçom absurda, inútil e nociva. Nom existiam empregos como ‘tele-operador’, repartidor de propaganda comercial, ou técnico de cultura. O ofício ocupava a maior parte da vida adulta, dava sentido à vida e sobrevivia-se na pobreza ou na austeridade. A quase ninguém se lhe podia ocorrer trabalhar para a opulência ou para a acumulaçom de objectos.
Outra universidade.
Um escritor russo de começos do século XX intitulou umha obra famosa As minhas universidades. Referia-se aos duros transes onde se fez como home, e onde circulavam mui vivamente as ideias da emancipaçom social. Viveu entre trabalhadores bêbedos, padeiros, bateleiros e vagamundos, e politizou-se apuradamente aproveitando as reunions clandestinas organizadas por estudantes e leitores nómadas no reservado de muitas lojas. Esta ánsia polo saber e a formaçom agitava de maneira febril centos, acaso milhares, de trabalhadores da Europa por aquele entom. Um carpinteiro inglês chamado James Hopkinson declarou também por aquela altura: que desperdício é a vida de aquele que nom tem um livro predilecto, nenhum armazém de ideias ou gozosa escolma do que se tem feito, experimentado ou lido. A ideia de leitura e a ideia de emancipaçom iam juntas. A ánsia pola formaçom era parte da ánsia geral por perfeiçoar as pessoas, com umha cultura do esforço mui acusada. Roubavam-se horas ao sono para aprender a ler e politizar-se à luz dum candil. Muitos trabalhadores politizados rematavam depois no jornalismo. Tratava-se dum jornalismo nom empresarial, comunitário e voluntarista, semelhante ao que hoje desenvolvem muitos militantes galegos, ganhando horas do tempo livre. Isto requeria um grande esforço pessoal e económico. Em 1920, o semanário socialista pontevedrês La Nueva Aurora, introduzia este chamado: Trabajador! Considera como uno de tus principales deberes el aumentar tu prensa –la prensa obrera y socialista-, haciendo cuanto puedas para lograrlo, incluso verdaderos sacrificios.
Socialistas, anarquistas e movimento obreiro.
Som precisamente estes obreiros volcados à curiosidade, ao saber e à sensibilidade ante a injustiça social, os que dam os primeiros passos para um associativismo de seu. O movimento obreiro nom nasceu nem se desenvolveu nas fábricas. Na Galiza, fijo-o nos obradoiros, alentado polos grémios mais vinculados com a palavra escrita ou com as relaçons sociais. O PSOE foi fundado em Madrid por um tipógrafo galego em 1879, e isto nom é um acaso. O dos sapateiros era um grémio também mui activo e de grande tradiçom republicana. Um conhecido militante santiaguês que chegaria a alcalde, Jesus San Luis Romero, escreveu umha das mais exitosas obras teatrais em galego, O Fidalgo, em 1918, onde retratava um moço que se lançava à luita contra os caciques na comarca de Bergantinhos. Os jastres, com um círculo social mui amplo, situavam-se assemade nesta tradiçom associativa. E os canteiros, com o seu trabalho itinerante e a sua coesom de grupo, actuariam como transmisores mui eficazes da ideologia obreira, sobretodo a socialista.
O PSOE chega à Galiza em 1891, quando se constituem vários núcleos nas cidades de Ferrol, Corunha, Santiago e Vigo. É um partido fraco e minoritário, mas vai-se aproveitando da força crescente das sociedades de ofícios. Estas têm umha base comarcal e progressivamente agrupam sectores diferenciados, federando-os. Quando o movimento obreiro formaliza e assenta, a partir de 1910, as sociedades já se inserem em estruturas mais amplas: a Confederación Regional Galaica, da CNT, e a Unión General de Trabajadores, de obediência socialista. Nos primeiros dez anos do século XX, as sociedades de ofícios espalharam-se como um vírus por parte da geografia do país; bastante mais adiante, já em pleno regime republicano, produz-se umha expansom ainda mais intensa, caracterizada polo fraccionamento político: cada sociedade tem as suas fidelidades partidárias, e as relaçons entre anarquistas, socialistas e comunistas som tensas e conflitivas. Nom podemos perder de vista que o PSOE governava em Espanha até 1934, e algumhas das suas decisons mais polémicas –como a paralisaçom das obras do trem Ourense-Samora- provocaram estoupidos de ira popular. De maneira simultánea, o partido aumenta a sua esfera de influência, e na República chega a ter 62 agrupaçons.
Apesar dos contínuos desencontros, as coincidências eram mais notáveis do que se tem dito. Na nossa comarca, e na década de 10, actuaram federaçons de sociedades que acolhiam diferentes visons do movimento obreiro, mas que argalharam fortes protestos conjuntos. Em 1916 fundara-se a ‘Federación de Sociedades Obreras y Pueblos Comarcanos’. Nesse mesmo ano artelhara-se umha greve geral polo abaratamento de subsistências, convocada por socialistas e anarquistas. A sociedade que antes citei sofre umha repressom aguda por participar dumha greve geral, de orientaçom revolucionária, em 1917. Esta greve sediciosa preparara-se secretamente no Monte da Condesa (no actual cámpus sul de Santiago), e tivera o líder obreiro José Pasín como grande promotor. No concelho vizinho de Teo, funda-se a ‘Sociedad de Oficios Varios’, dirigida polos irmaos Liste, e que mesmo protagoniza choques virulentos com a força pública no Val da Amaía. Segundo informa o periódico obreiro Lucha Social, na paróquia de Bugalhido tivera lugar um enfrentamento com a guarda civil que rematara com vários feridos. Corria o ano 1919.
Em todas as luitas, mas distantes da Galiza.
As sociedades de ofícios vários e os ateneus –em muita menor medida os partidos, caso do PSOE- fôrom as verdadeiras escolas para milhares de singelos trabalhadores, que conhecêrom na acçom directa umha outra visom do mundo. As formas de ajuda mútua servírom para abaratar os produtos básicos, para trabalhar menos horas, para conseguir mais salários. Mas também para conseguir outros direitos, que as forças sindicais defendiam com idêntico ardor. Os trabalhadores –mais que as trabalhadoras, que apareciam relegadas a um papel secundário- pulárom por tirar terreno à Igreja católica, que entom dominava todos os ámbitos. Num comício em Santiago, em 1910, as sociedades chamavam a defender as escolas laicas e, mais umha vez, a ilustrar-se para avançar: el pueblo trabajador crece, crece y agrándase como el oleaje y la tormenta. Empieza á instruirse á ilustrarse y ¡Ay! de vosotros los hartos y poderosos (...) los dichosos de hoy que hasta les negáis la ilustración, el pan y la libertad...! Nom faltárom tampouco as condenas às guerras imperialistas livradas por Espanha, por serem ilegítimas, e por causar umha verdadeira sangria nos soldados das classes populares.
Ainda, o movimento obreiro mostrou umha grande incomprensom com a causa galega. Os anarquistas, de maneira unánime, vírom um obstáculo para o interesse dos trabalhadores a causa nacional, e mantivérom-se numha posiçom contrária ao estatuto de autonomia para o nosso país, que entendiam umha nova forma de caciquismo. O PSOE, num congresso em Monforte, celebrado em 1931, nega-se a secundar o estatuto. Ambas as correntes obreiristas, apesar de representar umha base social popular e com toda certeza galego-falante, empregam o espanhol em toda a sua propaganda. Os socialistas mesmo ridiculizam o emprego do galego na assembleia em favor da autonomia galega. Numha publicaçom socialista ourensana podemos ver como se caricaturizam os actos dos galeguistas a propósito da aprovaçom do estatuto: Los nacionalistas nuestros, los hirmanciños, tienen una idea verdaderamente luminosa para cuando llegue la ocasión, dizem no jornal La lucha em 1931: El pendón que portará Otero Pedrayo será obra, según cuentan de Florentino Cuevillas, y estará escrita y dibujada con arreglo a la época paleolítica. Finalmente, o PSOE decidiu somar-se à causa autonomista, mas fijo-o sem demasiado entusiasmo e a reboque do grande consenso suscitado.
Duas importantes figuras merecem ser citadas como excepcionais polos seus plantejamentos. Umha é Jaime Quintanilla: este médico fora militante da Irmandade Nazonalista Galega, promotor da editorial Céltiga, e posteriormente alcalde em Ferrol polo PSOE. Militava num partido espanhol, mas nunca abandonou a sua adesom à causa galega. Desde as páginas do vozeiro do partido El obrero, pulou para que os socialistas se somassem à luita polo estatuto: me parece un poco imprudente la indiferencia y hasta la hostilidad con que algunos socialistas, pocos sin duda, miran el problema del Estatuto gallego (...) es imprescindible el reconocimiento del derecho de esas nacionalidades a la autodeterminación, al gobierno propio. Una de esas nacionalidades, con derecho a gobernarse a si misma, es Galicia. Som palavras de Quintanilla, que é assassinado polos fascistas em 1936 no castelo de Sam Filipe.
Umha outra figura senlheira foi Xohán Xesús González. Canteiro autodidacta, escritor e militante político, nasceu em Cúntis e fijo-se santiaguês de adopçom. Na nossa cidade abre a livraria Niké e colabora durante umha breve etapa de tempo no PSOE, antes de fundar umha organizaçom mui pequena chamada Unión Socialista Gallega. Escreve a obra Nacionalismo. Regionalismo. Separatismo e pronuncia umha sentência tam rotunda como esta: nada nem ninguém pode obrigar-nos a fazer parte dum Estado que significa para nós umha ruína iminente. Ao igual que Quintanilla, é passeado polos golpistas. Antes de cair reunira um fato de homens armados, os chamados Tercios de Calo, que pararam um tem com armas em Osebe.
A desfeita.
O golpe e a guerra esfarelaram este mundo, que se conformara na Galiza desde os anos 90 do século XIX. Foram corenta anos de experiência liquidados de maneira acelerada e abrupta em poucos anos. Os últimos lumes desta grande fogueira som os combatentes que ficam nos montes. Nas duras serras orientais, alguns socialistas de origem espanhol actuam como motores organizativos da chamada Federación de Guerrillas de León-Galicia. Ainda que o PSOE nunca pujo homens e recursos para a guerrilha, alguns dos seus militantes jogam um grande papel na direcçom. Nas comarcas do Berzo, da Cabreira ou de Viana ainda sonam nomes como os dos irmaos Morán, ou Marcelino Fernández Villanueva, ‘Gafas’, que já participaram da revoluçom de Astúrias em 1934. Mais perto da nossa comarca, outro nome ganhou o seu lugar na memória da gente: Manuel Ponte Pedreira, ‘Jastre’. Antes de ser membro do Partido Comunista e dirigente da IV Agrupaçom do Ejército Guerrillero de Galicia, simpatizara com o PSOE em Ordes. Actua perto da nossa comarca e cai tiroteado em Frades em 1947. Assassinados, fugidos ou dispersos, todos estes homens desaparecem da cena pública.
Os falsificadores.Esta história rematou. A ditadura liquida a tradiçom socialista, e as resistências ao regime fam-se fundamentalmente nacionalistas e comunistas. Quando as elites espanholas inventam a transiçom, a monarquia e as autonomias, ressucitam um cadáver sem muito respeito pola história que outros escreveram. Quem som estes presuntos herdeiros dumha história protagonizada pola gente de abaixo? Comunistas arrependidos, espanholistas de muitas pelagens, trepas, homens das classes médias universitárias, construtores e corruptos, jornalistas a soldo do poder, franquistas reciclados, escudados numha grande multinacional da comunicaçom que se chama grupo Prisa. A sua pequena e triste história terá que ser relatada em outra ocasiom, porque é melhor nom mesturá-los com umha tradiçom que nom lhe corresponde.