
Ugio Caamanho Sam-Tisso, vizinho de Covas (Ames) é sócio da Fouce de Ouro. Moço sempre activo e comprometido na defesa do Pais, participe em numerosas iniciativas sociais e culturais, actualmente preso político, remite-nos este artigo a princípios do mês de novembro desde a prisom de Navalcarnero (Madrid). Tem publicado um diário na rede: http://com-os-pes-na-terra.blogspot.com/
Sem licença de obras
É já quase proverbial a maneira galega de intervir na política : nom intervindo. Tradicionalmente, deixando a cousa pública em maos do cacique que corresponda, como no nosso caso era Astray; na forma mais moderna e urbana, confiando nos políticos e olvidando-nos do assunto até dentro de quatro anos.
E claro, assim nos vai e assim de vez em quando nos vemos obrigados a sonoros golpes na mesa, quando soltamos tanto a corrente que os poderosos começam a rir de nós sem pudor. Entom sim: LOU, Nunca Mais, guerra de Iraque. Entom saímos à rua, tratamos de colocar as cousas mais ou menos no seu sitio... e voltamos à casa.
Com maior motivo agora, que a “mudança” atinge todas as ordens institucionais: nom há rasto de PP em Ames nem Briom, na Deputaçom da Corunha, na Xunta, no governo espanhol. Até que enfim!, pensamos e como já nos livramos dos fascistas após tanta luita, podemos retirar-nos satisfeitos e aguardar que os novos políticos façam o que devem e nos dem um respiro, a nós e ao País, após tantos anos de asfixia. Naturalmente sobram motivos para a satisfaçom: o inimigo foi tam etnocida como tenaz, e ademais hoje há políticos de obediência galega no poder, por primeira vez na História.
Agora, por umha parte transcorreu tempo avondo para comprobar a muita escassa valia e vontade de reconstruçom nacional dumhas instituiçons, ao cabo, liderados por um partido espanholista; pola outra, devíamos ir fazendo-nos à ideia de que os pontos decissivos onde se livra a nossa sobrevivência colectiva nom estám nas maos dos governantes; estám nas nossas. De que serviria umha implementaçom rigorosa do Plano de Normalizaçom lingüística se à sociedade nom lhe importa-se o seu idioma? De que umha administraçom sensata dos recursos naturais, se os galegos nom estimam e cuidam os montes e rios? De que umha política laboral progressista se os trabalhadores nom se sindicam nem reclamam os seus direitos?
As ferramentas de que dispom a Administraçom nom som omnipotentes, por fortuna, e nada podem contra as dinámicas sociais, quando estas som conscientes e organizadas. Também nom servem como substituto da energia social, se ausente, nunca umha política guvernamental poderá ocupar o lugar dum povo vivo e articulado por volta dumhas ilusions, uns desejos, umhas necessidades, nom será quem de chegar tam longe, de conseguir tantas cousas como ele. O resto, confiar no Estado e ver-se a um mesmo incapaz de fazer nada sem a assistência das instituçons, nom passa dum reflexo do sempiterno auto-ódio que nos corrói, um fetichismo que todo o vê impossível sem o apoio salvífico, paradoxalmente, do nosso inimigo. Quando deixaremos de pensar-nos tam impotentes, e de sobrevalorar tanto ao Estado?
Porque nom se trata apenas de que José Fernández, Tourinho ou Zapatero nem queiram nem podam construir a Galiza que queremos. É que ademais o País que andamos a procurar é um País vivo, vivo no dia-a-dia, comprometido em projectos pequenos e grandes, transformando incansavelmente o seu próprio meio, transformando-se a si mesmo, indomável nem que seja plos próprios, muito menos por estranhos, organizando-se a si mesmo o seu lezer e o seu trabalho, sem aguardar nunca polas ordens dos governantes. Umha sociedade sá e activa, em suma, que intervém na política com a mesma naturalidade que na cultura ou no urbanismo, que controla com pulso firme aos políticos e, sempre que pode, ignora-os e constrói o futuro sem pedir licença de obras.
Seria bem nom aguardar nada das instituiçons e sim muito das gentes, e por conseguinte começar desde já a erguer a Galiza que queremos e a destruir o sistema que nos opreme. Desde as nossas aldeias, desde o vale da Amaía, com projectos autogeridos que tornem desnecessárias as institutuiçons; com luitas directas e sem mediaçons contra os que ameaçam a nossa terra e empobrecem a nossa gente. Agir, em resumo, por nós próprios.

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