Pedro Alonso é biólogo, activista da associaçom ecologista erva, vizinho de Ames e membro da Fouce de Ouro.
A ESPIRAL CRESCENTE DO LUME
Assistimos neste último verám a umha autêntica catástrofe ecológica, económica e social que ameaça em levar por diante essa pequena parcela de poder nacionalista que é a Conselharia do Meio Rural, na que algumhas pessoas teimam em acreditar afervoadamente no seu potencial revolucionador do nosso agro e dos nossos montes. E ameaça em fazer saltar em pouco tempo esta Conselharia porque se a luita contra o lume fracassa o próximo verám, estará fracassando um colectivo que durante anos criticou sistematicamente umha determinada política florestal e de combate do lume. O desafio é terrível. De forma lamentável, todos os anos umha vaga de lumes percorre o país, às vezes convertendo as nossas serras num ronsel de fume que envolve aldeias, vilas, estradas ou mesmo rias inteiras. Este ano, no mês de Agosto, ardêrom mais de 35.000 has. só em três semanas. Articulistas da mais diversa pelagem teorizárom sobre este drama, e mais de algumha destas plumas recolhia e amplificava a hipótese de que a maior parte dos lumes som provocados por gente desequilibrada, solitária, sem meios para se valer num entorno que se volveu hostil ou, polo menos, que se transformou em algo que se abomina por ser a antítese do monte limpo e trabalhado que esta gente teria conhecido na sua mocidade. Sem lhe restar peso a esta hipótese, que mui provavelmente explica umha boa parte dos lumes, existe umha fracçom destes da que as brigadas de investigaçom de incéndios nom acabam de clarificar as causas. Esses lumes, que prendem em determinadas circunstáncias e lugares, poderíamos associá-los com esses incendiários “profissionais” que pouco a pouco vam aparecendo, ou com esses outros vinculados com o próprio serviço de extinçom, ou com os que já levam em prisom mais de dous anos e ainda nom se aclarárom as motivaçons que levárom a umhas pessoas que nom encaixam no perfil do desequilíbrio a prender-lhe lume ao monte. É lógico manter o operativo contra os incéndios quando já estamos de cheio na luita. É lógico pensar que hai que reforçar o serviço contra incéndios para fazer frente ao lume o ano que vem. Mas numha batalha que só se vai ganhar mantendo umha política coerente a meio e longo prazo, encontrando numerosos e sérios atrancos e adversários, som necessários determinados movimentos que persigam convencer a cidadania de que o governo trabalha todo o ano na luita contra o lume, e nem só nas primaveras calorosas ou no mais quente do verám. Agora mesmo já tinha que ter feito algo esta Conselharia. Um foro de discussom, umha visita do conselheiro às instalaçons de empresas de desintegraçom que agora mesmo estám a mercar centos de toneladas de madeira queimada, um acordo com nom sei que universidade ou instituiçom para esculcar os nossos montes desde um satélite…., algo. Esta Conselharia deve estar permanentemente alerta e fazendo algo. Nom se pode permitir dar a impressom de estar a dormir. Isto seria umha temeridade, porque é deixar o governo do barco em maos da casualidade ou da eficácia dos adversários.
Historicamente, tem-se-nos negado a condiçom de país rico e atribui-se-nos, polo contrário, o arquétipo de sociedade subsidiada e pobre. Porém, a realidade é que os recursos naturais que esta terra oferece poderiam situar-nos, em condiçons políticas adequadas, numha situaçom privilegiada no contexto das naçons ibéricas. Terra adentro, nos nossos eidos e nos nossos montes, ao igual que no nosso mar, também existiu e existe umha grande variedade de recursos para nos enchermos de quartos a pouco que saibamos aproveitá-los ajeitadamente.
E isso é assi porque habitamos umha terra mui velha, lambida durante milénios polas águas do céu e o bafo do mar. Umha terra tam erosionada que até lhe falta a matéria orgánica de seu, de maneira que a nosa gente labrega, para ter boas colheitas, sabia transformar a farturante lenha dos nossos montes em abono divino, contando para isso com o contributo insubstituível da nossa fazenda pecuária. Com esse estrume apanhado das caeiras e as esculcas, enriquecido nas cortes e sabiamente incorporado às leiras, estávamos em posiçom privilegiada para orbitar nas mais elevadas alturas da agricultura ecológica europeia. Ademais, nas contornas das agras e lameiros, nessa terra escura e balorenta, onde se fundem as raízes da nossa frondosidade autóctone, alimentava-se o medre das mais valiosas madeiras nunca vistas. Umha espessura para os sentidos, onde se podiam apalpar os vapores da nossa mitologia. Já se tenhem comparado aquelas nossas fragas com as de Brocelianda e Tintagel, e a Grande Fraga de Tagen Ata nom é senom umha lembrança daquelas selvas galaicas. Mas, no mundo prático e monetário da economia, essas massas florestais seriam como as hoje existentes no Jura francês ou no Spessart germano, onde os milhons medram nada mais cortar um desses carvalhos monumentais. Nas encostas e planaltos serpenteavam as greas milenárias entre os penedos, chamadas a cumprir o seu puntual pacto de entendimento com a humanidade galega nos valados centenários que aqui chamamos curros. Milheiros de vacas sobiam aos montes ao quecer a primavera, desde O Suido até a Queixa, Sam Mamede, Os Ancares ou Trevinca. E a veceira ajuntava as aldeias para repartir os labores do pastoreio das ovelhas e cabras galegas.
Agora que lembramos e imaginamos esse mundo nom tam antergo, perguntamo-nos como pudemos chegar a este tempo presente, no que a nossa terra se nos apresenta esvaziada do seu cerne, condenada a arder no lume que prendêrom ou deixárom prender os seus filhos, esforçando-se para nutrir seiva alheia e, novamente, sentenciada a volver a essa pira colosal que se acende todos os veráns. Como um Sísifo telúrico, a Nossa Terra peregrina com as suas amarguras ascendendo por umha encosta cheia de pelouros e, de cada vez que alvisca o seu passado, se precipita ao abismo para doutravolta erguer-se, enfrontar o seu destino e volver a cair. Tal como aparenta conduzir-se o seu povo.
É que nom existe alternativa para essa trágica realidade que ano tras ano coloca um interrogante acerca da nossa hipotética perturbaçom mental massiva e colectiva? Foi o nosso um povo que praticou tradicionalmente a pirocultura ou bem um povo que pretendem esmagar mediante piroclástia? Para contestar rotundamente estas perguntas precisaríamos um nível de análise e precisom que nom dispomos nestas humildes folhas da Fouce. Mas tentaremos descrever o cenário principal onde se interpreta este drama, identificar o reparto de artistas e compreender minimamente o guiom da obra.
A história desta mudança radical começa com aqueles magníficos bosques reduzidos já a umha minguada representaçom por mor do passo dos séculos e das necessidades básicas da nossa sociedade. Aproveitados até a extenuaçom para criar pastos ou para abrir novas zonas de cultivo, alcançam a metade do segundo milénio da idade moderna conservando ainda a sua esgrévia figura, recortando-se no perfil das montanhas e abraçando as lombas e valgadas que descem aos vales. Nesse tempo, as cortas ordenadas polos distintos monarcas espanhóis para construir e manter o que daquela foi a maior esquadra militar dos mares levou a grande parte daqueles bosques à desapariçom. Estas grandes embarcaçons seriam denominadas mais tarde como os “bosques flotantes”, pois em cada un deles viajavam os cernes de centos de sobérbios carvalhos e castinheiros galegos.
Mais tarde, outras necessidades do progresso imperial conduzírom a nossa floresta a umha situaçom ainda mais depauperada. A fundiçom do ferro fijo-se com carvom, que se obtinha da corta das árvores, a abertura dos caminhos de ferro também pedia travessas, que se obtivérom também destes últimos grandes carvalhos.
Finalmente, é num tempo de dominaçom absoluta, quando mesmo as palavras estavam proibidas, quando se inicia o desenlace da velha história e começa a construir-se a nova. O modelo económico da autarquia franquista desenha un futuro forestal situado nas antípodas do modelo tradicional. Concebem-se os nossos montes vicinais como grandes espaços de propriedade indefinida, sorteiam-se ou ignoram-se os vínculos da propriedade comunal e invadem-se os pastos e os montes para o fomento sistemático da silvicultura industrial, mui de moda polo recente descobrimento da desintegraçom da madeira para a fabricaçom de taboleiros ou de celulose industrial. A tudo isto une-se-lhe umha planificaçom económica que contempla as cidades como grandes focos de industrializaçom e o mundo rural como vasto espaço fornecedor de mao de obra barata. Na nossa terra, este processo executa-se pola via da violência, e dúzias de montes vicinais som tomados polo Património Florestal com o apoio das forças repressoras. E é na Galiza onde o “milagre florestal” franquista adquire umha verdadeira dimensom trágica. Milhares de pessoas mobilizam-se para defender os seus direitos tradicionais e a sua forma de vida. Centos delas som repressaliadas e dúzias morrem abatidas polo benemérito corpo da Guardia Civil. A falta de perspectivas económicas, o desarraigo e a emigraçom conduzem ao abandono sistemático das aldeias, dos montes e do mundo rural. Entre os decénios de 1950 e 1960 deixam Galiza centos de miles de pessoas.
A depressom demográfica do rural traduze-se no abandono das actividades e aproveitamentos tradicionais, as produçons da agricultura e a gadaria caem em picado, os vínculos horizontais que se estabeleceram entre o “monte” e o “agro” vam esmorecendo. A falta de gente que trabalhe e roce a lenha das encostas e valgadas conduz em pouco tempo ao medre sistemático das matogueiras. Os eidos que se vam abandonando arredor das aldeais forestam-se com espécies de crescimento rápido, altamente combustíveis. Por outro lado, inicia-se a progressiva mas imparável entrada de um agente distorsionador que iria cobrando enorme influência sobre o rural. A Empresa Nacional de Celuloses vai ir substituindo de facto a política florestal executada polo Património Florestal do Estado, organismo encarregado a partir dos anos 40 e 50 de pôr os montes ao serviço da indústria florestal.
Conjuntamente com Portugal, mas também em cenários situados mais longe, como Astúrias ou Cantábria, Huelva ou a Extremadura espanhola, Galiza experimenta umha massiva eucaliptizaçom para fornecer de matéria prima barata as factorias de ENCE. Esta empresa, junto com as celuloses de Portugal, irám-se constituindo em verdadeiros empórios com produçons ingentes de pasta de celulose para o mercado europeu. Todo o terço norte de Potugal situado por baixo dos 700m irá progressivamente ocupando-se por eucaliptos até contabilizar na actualidade mais de 700.000 hectares. Na nossa terra, o último inventário florestal cifra em mais de 170.000 as hectares puras de eucalipto, mas a realidade é que entre massas puras e dominadas, esta espécie é a principal em mais de 330.000 has.
No caso galego, as produçons vam associadas a umha situaçom caracterizada pola multifragmentaçom da propriedade, de maneira que para que o fornecimento da madeira seja fluido, se precisam efectuar centos de operaçons de compra-venda de parcelas florestadas. Esta realidade, junto com a existência de dous gigantes como ENCE e FINSA, dá lugar a que prevaleçam no mercado os preços impostos por estes oligopólios. Dá-se o caso, incluso, de que as práticas de empresas filiais como NORFOR, que fornece de madeira a ENCE, acabem por afogar a resistência à desapariçom de pequenas empresas familiares, que vivem do asserrio mas também da comercializaçom de madeira.
Como conseqüência, temos um sector florestal caracterizado pola domináncia quase absoluta na produçom silvícola de madeiras para a desintegraçom, pola escassa capacidade e incidência de outros aproveitamentos, pola prática inexistência de umha silvicultura orientada à produçom de madeiras de qualidade, pola atomizaçom da propriedade e polo declínio da gadaria extensiva e a falta de povoamento como principal eiva para empreendermos outro tipo de aproveitamentos nos nossos montes.
Nessas circunstáncias, coincidentes também em Portugal, nom é difícil que apareça o lume um ano si e outro também. As causas que explicam esta catástrofe son múltiplas. Neste ponto, convém diferenciar entre as causas que explicam que apareça o lume e aquelas outras que explicam que o lume se propague e arrasse periodicamente milheiros de hectares da nossa terra. Entre as primeiras, este ano tem-se falado muito sobre a existência de um perfil incendiário que se associaria com gente maior, de pouco nível cultural, geralmente isolada ou que nom conta com meios para fazer frente a umha situaçom de desestruturaçom social e espacial que, entre outras conseqüências, leva estas pessoas à confrontaçom com um espaço físico contraposto que tradicionalmente se tem concebido como óptimo. Também temos escuitado novamente as teses políticas, que baseiam na utilizaçom do lume como arma de ataque entre formaçons políticas.
E, finalmente, e entre as mais variadas casuísticas de proximidade, também salientaremos a hipótese que explicaria a grande quantidade de lumes que em certos anos se desencadeiam nos nossos montes como o resultado da acçom de umha rede ou trama, organizada em maior ou menor medida, que actuaria com motivaçons económicas e sociológicas. O seu objectivo seria desmoralizar a sociedade galega, extorquir os governos para perpetuar umha certa política florestal e que nada mude de sítio, e pôr no mercado umha quantidade superior de madeira que lhe permita abaratar custos e produzir muito mais do que em anos anteriores, afrontando possíveis vaivéns dos preços nos mercados internacionais.
Em todo o caso, e independentemente de qual seja a causa principal destes lumes, o que si é certo é que existem umhas causas estruturais que dam lugar a que este problema adquira dimensons trágicas. Sem atacar esses factores estruturais estaremos a reproduzir umha política convencional, permissiva com unha realidade do nosso agro e os nossos montes que favorece as grandes empresas de desintegraçom da madeira e que fomenta ano tras ano a escenificaçom deste drama.
Monday, February 20, 2006
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